quinta-feira, 13 de maio de 2010

O MOINHO DE PEDRA DO GUARAPIRANGA E O EXERCÍCIO DO AMOR

Há quinze anos atrás, a rotina de Rita de Cássia de Vicenzo, nas   terças-feiras era sempre a mesma. Quando saia da Puc, onde fazia mestrado, passava pela praça das Guianas e parava para comprar balas de algumas crianças que ficavam por ali, muitas vezes debaixo de chuva. Certas de que tia Rita viria, elas esperavam porque sabiam que ali estava a cliente certa: acontece que a advogada comprava todo o estoque para que as crianças fossem para casa mais cedo! A notícia se espalhou e logo o número de crianças era muito maior. Nas quartas, também passava pela praça, o tio Jura, um senhor que levava lanche para a criançada. Insatisfeita com a situação, Rita  considerou que sem instrução, educação e um direcionamento mais concreto, as crianças permaneceriam nas ruas sem direito a um futuro melhor...assim a advogada entrou em contato com as famílias e negociou cestas básicas em troca de frequência escolar.

Um tempo depois, sob a proteção de Francisco de Assis, ela e uma amiga estavam evangelizando as crianças na favela do Guarapiranga. A mudança precisava de uma estrutura sólida  que contasse com sustentação espiritual para todos, inclusive para as mães. A iniciativa recebeu apoio do Instituto Espírita Allan Kardec de Educação e assistência Espiritual e assim foram chegando coloboradores interessados em fazer diferença na vida daquelas crianças e adolescentes carentes da comunidade.


A arquiteta Zelma Cincotto viu ali uma oportunidade de trabalho onde a prática do amor, do equilíbrio  e do esforço conjunto cobrava uma formatação mais concreta - um local foi alugado para que fosse oferecido acolhimento para as crianças - assim nasceu o Moinho de Pedra do Guarapiranga, uma OSCIP - Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, sem fins lucrativos - essa adorável casa que você vê na foto ao lado. 

Outras tias como  Tita,  Rosana,  Cecília,  Diana e os tios Zé Luis e Rodrigo, vieram somar atenção, esclarecimento e orientação para as 80 crianças e adolescentes carentes, entre 3 e 17 anos de idade, que são atendidas. Na casa, elas recebem reforço escolar acompanhado pelo cuidadoso olhar da pedagoga Diana Granato e da professora Juliana, moradora da comunidade.
Diana também realiza psicodrama com mães que encontram ali uma oportunidade de trabalho psicológico para suas vidas.
Todos os professores do Moinho cumprem um programa de evangelização espírita elaborado anualmente com o propósito de proporcionar para as crianças a possibilidade de mudança interior pautada na ética e na moral de Jesus, tão fundamental para todos nós...

O advogado Rodrigo Setaro conta que no balanço pessoal que faz das atividades com as crianças, chegou a conclusão que ganha muito com elas: "...O mais importante é a prova que estou passando em termos de paciência, ânimo e respeito. A convivência com as crianças do Moinho serve como um excelente laboratório de autoconhecimento, estou aprendendo mais com elas do que elas comigo."
O escritor Dias Campos, conta que : "Ir dar aulas de evangelização no Moinho tem sido mais que prazeroso; é um verdadeiro banquete! Aliás, é como costumo dizer para os alunos, de duas uma: ou isso é a mais pura verdade, ou eu sou o sujeito mais burro desse mundo, pois, mesmo tendo uma esposa que muito amo, um encanto de filhinho com quase dois anos e piscina no condomínio, jamais falto àquelas aulas, em que pese serem ministradas aos sábados de manhã, quando, via de regra, faz um sol maravilhoso. De outra parte, quando ex-alunos vêm nos visitar, nossos espíritos se abastecem de eflúvios divinos, pois abraçam-nos com toda força da verdadeira amizade, da verdadeira gratidão; e passamos a chorar em segredo, um choro de completa alegria."


Você consegue imaginar o efeito disso numa criança que muitas vezes nasceu num lar emocionalmente desestruturado?!


A casa é mantida com algumas doações,  e  parceiros importantes como New dog, Instituto Allan Kardec,  Bagel, Spinelli, e   a empresa Ninecon, além de pessoas físicas. Uma vez por mês também acontece um bazar beneficente coordenado por zelma Cincotto, que atraí a comunidade em busca de bons produtos como roupas, utensílios domésticos, brinquedos e peças de decoração com preços muito convidadivos, pois o objetivo é também proporcionar inclusão social no consumo para a comunidade do Guarapiranga. A estrutura do Moinho conta também com uma biblioteca e uma sala de informática, que foram gentilmente "clicadas" por Dias Campos para que você conhecesse um pouco desse cantinho protegido e abençoado por Francisco de Assis...
A verdade é que todos que lá trabalham, inclusive eu, recebem muito mais do que dão porque é no exercício do amor tão bem exemplificado por Francisco de Assis que aprendemos que dar é infinitamente mais gratificante do que receber...nossos corações agradecem!!
Experimente! Conheça pelo site www.moinhodepedra.com esse cantinho que é um pedaço do céu!


sexta-feira, 7 de maio de 2010

Se os seus olhos forem bons...

Se os seus olhos forem bons...

HOMENAGEM AO DIA DOS FILHOS...


Mais uma vez nesse segundo domingo de Maio comemora-se o dia das mães, mas eu optei por comemorar o "dia dos filhos" pois sem eles, nós, as mães não existiríamos...
Minha homenagem para eles, os filhos, se justifica porque um dia, eles nos escolheram para recebê-los dentro de nós, nos nossos corações e para os encaminharmos na vida. Sabe o que isso significa?
Que nessa escolha que fizeram, eles derramaram sobre nós confiança, amor e fé!
Confiança! Confiança de que somente nós estaríamos capacitadas para orientá-los e criá-los dando toda a formação moral e intelectual que precisariam para enfrentar as dificuldades da vida.
Amor! Amor o bastante para que nos aceitassem com nossas inseguranças, medos, angústias, fraquezas e outros quesitos tão comuns à alma feminina.
Fé! fé suficiente para crerem sem ver e sem testar anteriormente nossos atributos maternos. Eles assinaram uma folha em branco em que diziam apenas: "É essa a mãe que quero para mim, é essa mãe que preciso!"
Também são eles, os nossos filhos que nos ensinaram o dom da paciência, esse atributo divino que só os mansos alcançam depois de muita iluminação interior - e são eles, os nossos filhos - que nos trazem o indispensável exercício da paciência, quando pequeninos ficam doentes e nós insones precisamos estar calmas para cuidá-los. Quando adultos, também nos ensinam a paciência e a aceitação de quem respeita o filho com as escolhas que ele fez e não aquelas que um dia sonhamos para eles...
Eles nos impulsionam para a paciência quando transbordando energia nos obrigam a acompanhá-los num ritmo frenético que não olha a idade materna.
Nossos filhos também nos induzem ao paciente escutar quando adolescentes nos colocam diante dos maiores embates emocionais e psicológicos com eles e principalmente dentro de nós.
Eles, nossos filhos, nos ensinam a sermos mais generosas porque ao chegarem ao mundo e nos olharem pela primeira vez, fazem nosso coração experimentar um amor que só sabe dar e dar cada vez mais. A generosidade que não temos, que nos falta, aprendemos com eles, que nos tornam pessoas melhores, mais tolerantes com as nossas limitações e também com as dos outros. Eles enchem nossa casa e carro de amigos, nos transformam em motoristas e conselheiras permanentes deles e daqueles que eles consideram e escolheram para conviver - e nós acatamos com devoção e alegria! Eles estão sempre pedindo coisas, atenção e isso nos exercita na generosidade porque queremos atendê-los e acolhê-los em suas necessidades. Quando nos damos, recebemos muito mais em troca, nos alimentamos espiritualmente...
Nossos filhos também nos trazem amadurecimento e crescimento pessoal porque precisamos ser adultas para conseguirmos educá-los, protegê-los e ajudá-los em muitas das escolhas que fazem: a roupa da festa que irão, o que fazer depois do primeiro fora da namorada, como lidar com a rejeição, como secar as espinhas, que profissão escolher, o que falar para o amigo que rompeu com ele?
Eles nos ocupam, causam transtornos, noites mal-dormidas, consultas com especialistas, conversas na escola, dores de cabeça, insonia, preocupação, mas sobretudo, nos ensinam verdadeiramente a amar nos dando também oportunidade de progresso e crescimento! Sim nós evoluímos e mudamos, pois entramos frágeis e inseguras nas nossas empreitadas maternas e saímos indiscutivelmente mais fortes e vigorosas para os embates da vida! 
Nossos filhos é que merecem todas as honras, carinhos, flores e agradecimentos nesse dia das mães, por tudo que são para nós, mas principalmente porque nos transformaram em pessoas melhores. Ser mãe é mágico, é sublime,  é sem dúvida nenhuma, a maior de todos as realizações de nossas vidas! Sem eles, nós não teríamos vivido tudo isso! Não seríamos quem somos...

Agradeço ao meu filho Eduardo, que hoje tem 29 anos. Foi ele quem me despertou para o encantamento da maternidade! Com ele descobri realmente o que é amar... Também foi ele que me ensinou com sua maturidade o fato de que os filhos não são nossos, apenas vem para a vida através de nós!  obrigada filho por sua doçura, ternura e gentileza.
 Agradeço ao meu filho Fernando, que hoje teria 28  anos. Foi ele quem me despertou para a alegria de uma vida em constante ebulição, alegre e festeira, desprendida e generosa! Em sua rápida passagem pela Terra me fez conhecer a dor da separação partindo há três anos, mas me fazendo compreender que prosseguimos como mãe, sobrevivemos (inacreditavelmente sobrevivemos!) amando da mesma maneira que antes, sempre e cada vez mais...Ouço sua voz na minha mente quando a saudade dói, me trazendo calma e a certeza de que persiste vivo mais além. Sinto ainda o seu perfume envolvendo nossa casa quando meu pensamento busca o seu e posso vê-lo sambando de um jeito malandro que me encantava...
A verdade é que permanecemos em nossos filhos e eles permanecem em nós mesmo quando se tornam adultos, quando casam, quando partem de volta para Deus, afinal o amor é esse cordão umbilical que liga coração a coração, transpondo barreiras como o tempo, a distância, a vida e até a morte...
Obrigada Duda e Nando por terem me escolhido como mãe um dia, por terem apostado em mim e por terem feito de mim um ser humano melhor! Esse dia das mães é o dia de vocês! Amo vocês sempre!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

AS FÁBULAS QUE CARREGAMOS DENTRO DE NÓS...


Toda criança gosta de fábulas, principalmente a criança que mora dentro de nós.
A explicação para isso é simples: as fábulas que ouvimos um dia de nossos avós e pais e que repetimos para nossos filhos e netos, são sempre instrumentos e ferramentas de conteúdo moral que despertam dentro de nós valores importantes para a vida - elementos que usaremos em nosso processo de educação -  nos relacionamentos e no convívio social, mesmo que em nossa infância não tenhamos consciência desse uso.
Na verdade, gostamos das fábulas porque elas envolvem movimento, interatividade, entretenimento mas principalmente porque nos vemos e nos enxergamos através delas!
As fábulas são como espelhos mágicos onde nos vemos refletidos de forma lúdica e por isso mesmo se desejarmos, são valiosos instrumentos de autoconhecimento pela vida afora...
O maior fabulista que já existiu foi Esopo, um grego que viveu no século VI a.C. e que usava os animais dando-lhes vozes, atitudes e expressões tanto quanto os homens, para que nós, os próprios, nos vendo através dos bichos, nos entendêssemos melhor .  Não se sabe muito a respeito de Esopo, que acabou resgatado em sua memória,  por causa de outro fabulista espetacular, que foi Jean de La Foutaine.
O francês La Foutaine, que viveu entre 1621 e 1695, cresceu em meio à natureza e em função disso, desenvolveu o hábito de observar (e aprender!) com os animais, considerados pelo grande escritor, verdadeiros filósofos...a criatividade, a percepção e discernimento de La Fountaine renderam a ele um honroso lugar na Academia Francesa em 1684 e o respeito de toda a corte do rei Luís XIV. Voltaire (que não era dado a esse comportamento!) teceu elogios rasgados a La Foutaine e as fábulas, com que ele descrevia a arrogância humana de então e a erudição cultural, que precisava a todo custo, ser rebuscada para impressionar. Disse Voltaire certa vez sobre o fabulista francês: "...Acredito que, de todos os autores, La Fountaine...é para todo tipo de espírito e para qualquer época" 
Voltaire sabia o que estava dizendo! Qualquer época mesmo...vamos exemplificar isso buscando La Fontaine. Quase todo mundo conhece a fábula da raposa e do corvo, mas não custa relembrar a história que descreve com precisão e propriedade a questão da lisonja, da sedução, da esperteza e do orgulho...vamos a ela!
Em cima de uma árvore um corvo se preparava para devorar um pedaço de carne, quando uma raposa parou e olhando para ele exclamou sedutoramente: "Que bonito o senhor é Sr. Corvo, com essas penas tão reluzentes e brilhantes...imagino seu canto, deve ser o mais lindo de toda essa floresta!" - O corvo então seduzido pelas palavras da raposa, abriu o bico para cantar deixando cair o pedaço de carne, que obviamente foi surrupiado pela esperta raposa!
Moral da fábula: Como corvos, nós nos deixamos embalar pelos elogios que muitas vezes não refletem a verdade, mas suprem em nós uma carência interior profunda de sermos aceitos, valorizados e apreciados pelos outros. Também como corvos, somos ingênuos permitindo que qualquer sedução vulgar nos embriague a ponto de nos deixar vulneráveis a julgamentos, opiniões e situações complicadas e dolorosas. Falta-nos o conhecimento verdadeiro de nossas potencialidades, virtudes, falhas e defeitos. Não nos conhecemos, assim somos manipuláveis, manipulados e usados pelas raposas a solta no mundo.
Como raposas, nos achamos espertíssimos, sempre a postos para a primeira oportunidade de tirarmos vantagem de algo ou alguém. Também como raposas desdenhamos daqueles que não possuem esse senso de oportunidade que nós temos. As raposas afinal, sempre encontram uma maneira de manipular, seduzir e enganar pois o mundo está cheio de "iscas" dando sopa...
Tanto Voltaire, com seu senso de observação a respeito do trabalho de La Fontaine, quanto o próprio, conheciam a alma humana tão frágil e entregue às vicissitudes e sofrimentos da vida...
Muito antes disso, Sócrates já dizia que o caminho da felicidade estava em conhecer-se a si mesmo, pois só pelo autoconhecimento nos educaríamos para a vida. Com a mesma intenção falou Jesus no exame de nossas faltas e Santo Agostinho na necessidade diária de avaliarmos nosso comportamento em relação ao nosso próximo e a nós mesmos.
Mas o fato é que vivemos tão para fora de nós, vivemos tanto para as aparências e exterioridades, tanto para sermos aceitos, para desempenharmos os papéis que esperam de nós que esquecemos de nos olhar verdadeiramente! O que dirá então, nos avaliarmos interiormente?
Somos muitas vezes autômatos nas nossas atitudes, agindo por agir, falando por falar, vivendo para os outros e não para nós, esquecendo as fábulas que carregamos dentro de nós e que se as usássemos mais, faríamos um pouco como nos preconizou La Fontaine, Sócrates e acima de tudo, Jesus, o maior de todos os educadores que já passaram pela Terra!
E se não somos mais crianças ou matamos a criança que existia em nós e assim esquecemos todas as fábulas que um dia ouvimos de nossos pais, temos sempre um outro roteiro (infalível!) a nossa disposição para nos conhecermos melhor: as bem-aventuranças ou o Sermão da Montanha proferido nas colinas de Kurun Hattin no lago de Genesaré por Jesus.
Mahatma Gandhi, num de seus muitos momentos de iluminação, disse que se todos os livros que existem no mundo se perdessem ou fossem queimados e só sobrasse as bem-aventuranças, a humanidade estaria salva!
O que será então que nos falta a todos para nos conhecermos melhor e nos salvarmos de nós mesmos?!!

Dica de leitura: "La Fontaine e o comportamento Humano" de Francisco Do Espírito Santo Neto ditado por Hammed.
"O  Sermão da Montanha" texto integral de Huberto Rohden

terça-feira, 27 de abril de 2010

O HAITI SOB O OLHAR DE UM JOVEM BRASILEIRO




Pouco tempo depois do Haiti ter sido violentamente sacudido pelo terremoto que aconteceu no dia 12 de Janeiro desse ano, deixando um saldo de 200 mil mortos, 500 mil desabrigados e 250 mil feridos, meu filho Eduardo partiu para o país caribenho.
Duda é oficial-da-marinha brasileira e piloto de helicóptero. Ele estava a serviço do Destacamento Aéreo Embarcado do Primeiro Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral com sede em São Pedro da Aldeia no Rio de Janeiro, e voa o helicóptero Esquilo, apelidado de Tudão, por seu emprego geral, entre alguns a busca e o salvamento.
Minha nora Dulce apoiou Duda nessa missão entendendo seu caráter humanitário. Todos nós vimos aí uma grande oportunidade de exercício humanitário, uma dessas chances que a vida nos dá de sermos úteis e vivermos de fato a solidariedade.
Pedi então ao meu filho que me contasse informalmente o que viveu, sentiu e percebeu dessa tão rica experiência, que agora compartilho com você!
Duda já tinha estado no Haiti no ano anterior em missão de paz pela Marinha Brasileira que atuava assim como nosso Exército e nossa Força Aérea com a ONU na MINUSTAH - Mission des Nations Unies pour la stabilisation en Haiti. Ele relembra a situação naquela época: " Vi um país, assolado por uma miséria sem precedentes nas Américas, instabilidade política e falta de segurança para sua população, provenientes de um histórico de exploração colonialista, aliado a uma economia frágil. Esses foram grandes argumentos para o estabelecimento desde 2004 do Brasil chefiando uma missão de paz da ONU, a MINUSTAH"
Lembro de sentarmos juntos para ver as fotos que ele tirou e que apesar de tudo registravam um povo alegre e sorridente sob um céu muito azul e um mar deslumbrante. Após o terremoto, o cenário ficou totalmente comprometido. As fotos que vimos depois falavam de uma condição ainda mais dolorosa e difícil para os nossos irmãos caribenhos.
O mundo então parou para se unir no socorro aos sobreviventes enviando navios, aviões e porta-aviões para Porto Príncipe, capital do Haíti e epicentro do terremoto. Duda junto com oficiais, marinheiros, enfermeiros e médicos brasileiros embarcaram no navio italiano Cavour que também seguiu para lá: "A Itália havia destacado para a missão o  Navio-Aeródromo Cavour, uma novíssima belonave, capitânia da Marina Militare Italiana.O embarque dos brasileiros ocorreu às nove horas da manhã, de uma quinta-feira chuvosa no porto de Mucuripe, em Fortaleza. Dirigimo-nos para Mucuripe a 1ooo pés, e após receber autorização do Controle de Fortaleza, descemos para 500 pés a fim de nos posicionarmos no Delta do navio ao seu bombordo, pois o mesmo se encontrava atracado por boreste. Fizemos uma passagem seca a bombordo afim de checar as informações de vento no convoo e de ficarmos no visual da torre. O Águia 57 recebeu a autorização par abandonar a formatura, com curva à esquerda, mantendo 300 pés após determinação da torre do navio. Fiz dois circuitos de espera, e finalmente, recebi a autorização para entrar na aproximação final. Pedi para o 1P acusar a final. Cheque pré-pouso completo, toquei no spot 5. Era a primeira vez que uma aeronave brasileira beijava o convoo daquele grande navio.O Navio é moderníssimo. Fruto de uma nova geração de navios-aeródromos, a Nave Cavour é um navio multi-propósito construído para operações aeronavais com helicópteros e jatos AV-8B V/STOL. Possui a capacidade de embarcar viaturas de fuzileiros navais, tornando-o uma arma, sobretudo, de projeção de poder sobre terra. Contudo, sua primeira missão real seria muito mais nobre: a ajuda humanitária. O navio foi carregado de tudo o que seria possível para ajudar a população haitiana de imediato. Leite, arroz e água, entre muitos outros gêneneros ocupavam juntamente com tratores, empilhadeiras e escavadeiras, mais da metade do hangar. As aeronaves ficaram espotadas no convoo, juntamente com ambulâncias e viaturas dos Carabinieri a famosa polícia italiana."
A missão que durou cerca de dois meses envolveu momentos de muita aprendizagem e trabalho. Porto Príncipe, como todos acompanharam pelas notícias que saíram na mídia, reunia navios de vários países do mundo, assim como também o aeroporto do país que concentrava um movimento atípico de aeronaves estrangeiras. Em terra, havia a grande massa humana caminhando a esmo, sem destino, pedindo ajuda, procurando por parentes perdidos, buscando alimento e atendimento de médicos e enfermeiras que trabalhavam nas ruas em barracas transformadas em hospitais.
A agitação nos céus ficava por conta dos helicópteros que transportavam feridos, alimentos, remédios. Duda comentou um pouco dessa rotina : "Voos de EVAM começaram a se intensificar. Uma menina de 8 anos, em coma com grave traumatismo craniano foi trazida a bordo a fim de ser operada, e logo em seguida foi removida. A sistemática do apoio médico no Cavour funcionava da seguinte forma: feridos necessitados de cuidados maiores, que pudessem ser evacuados e que pudessem ser tratados a bordo eram trazidos em aeronaves SH-3D e EH-101 para bordo. Sua permanência era rápida - apenas o suficiente para que sua recuperação fosse acelerada e seu estado de saúde melhorasse. Desta forma, a enfermaria do navio não ficaria lotada, permitindo uma rotatividade maior, e por consequência um maior número de atendimentos.Um padre haitiano com uma grave lesão em uma das pernas e com amputação acima do joelho foi trazido a bordo.Seu quadro de saúde era delicado, devido a uma infecção na perna, o que poderia ocasionar a perda inclusive de seu joelho. O padre foi colocado numa câmara hiperbárica localizada dentro do hangar do navio, onde submetido a uma pressão rica em oxigênio, seu processo de cura seria mais rápido. Após a exposição na câmara hiperbárica, e feito uma cirurgia por um médico brasileiro do ministério da saúde, o padre foi levado de volta ao Haiti."
Momentos de profunda fragilidade humana são registrados nessas horas de dor e sofrimento, mas quase sempre acompanhados de verdadeiro acolhimento: " Um menino de uns 7 anos de idade, desembarcou da aeronave. Seu olho direito estava coberto por bandagens. Parecia assustado, com um semblante que registrava não entender muito bem o que se passava a bordo. Uma enfermeira italiana imediatamente começou a fazer carinho em sua cabeça, de modo que ele ficasse mais tranquilo. Parece que funcionou."
Sempre funciona! Quando há uma intenção sincera de ajuda e cooperação somos tocados de imediato.Nestas circunstâncias, todos nós independente da idade que se tenha, busca conforto emocional, aconchego e reconhecimento.
A grande questão que envolveu essa tragédia no Haiti foi a espetacular mobilização internacional que moveu a Terra para uma missão completamente diferente de tantas outras que já fizeram parte da história humana, como a primeira e a segunda grande guerras mundiais.Podemos perceber que caminhamos para uma nova fase de nossa jornada humana, onde países de culturas e interesses diversos são capazes de se unirem para proteger e não atacar. Se unem para conciliar e não separar. Se unem para somar e não dividir...
A verdade é que a dor, a despeito de todo sofrimento que traz, também é capaz de realizar mudanças e transformações pessoais muito profundas em todos nós!
Registro aqui o sentimento de gratidão do meu filho Duda: "Agradeço a oportunidade de ter voado em conjunto com a Marinha Italiana e ter participado de uma missão real de ajuda humanitária internacional!"